Pesquisas da UnB em Ceilândia são afetadas pela falta de geradores

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Amostras biológicas de pesquisas do campus da
Universidade de Brasília em Ceilândia (FCE) foram danificadas devido a queda de
energia, pesquisadores temem novas perdas com a chegada da época de chuva. A
faculdade, que depende unicamente da distribuição de luz da CEB, possui há
cinco anos dois geradores que nunca foram instalados. As amostras perdidas
pertenciam a uma pesquisa sobre o composto MST312, cujos resultados podem ser a
base para pesquisas sobre a cura do câncer.

A pesquisa é o projeto de
mestrado de Karolynne Morais, que agora luta para recuperar as amostras
danificadas. As células cancerígenas ficam armazenadas em freezers a -80ºC, e
durante a queda de energia de 12 horas que ocorreu em outubro a temperatura chegou
a atingir -20ºC. A mestranda explica que esta temperatura caracteriza ambiente
adverso  que pode levar a morte da célula. “Células de câncer são
naturalmente mais instáveis do ponto de vista genético, e se durante um
experimento como esse ocorre um estresse assim, todos os resultados podem ser
comprometidos. Como dar credibilidade ao que estamos observando assim?”, se
queixa Karolynne.
Diego Madureiro, orientador da pesquisa e
professor de bioquímica da FCE, teme novas perdas de amostras. “-20ºC é o limite,
um pouco mais e poderíamos ter perdido todas as amostras!”, diz. Outra
preocupação é com os equipamentos: “Nós temos equipamentos analíticos que
precisam ficar constantemente ligados, mesmo que não estejam sendo usados. Se
ficarem desligados por muito tempo, perdem seu vácuo e alta tensão e corremos o
risco de perder ou componentes que provavelmente somariam mais de 100 mil reais
ou o equipamento todo, que custa milhões de reais”, explica Diego.

Com cursos exclusivamente na área da saúde, a
FCE conta com 11 laboratórios e um grande número de pesquisadores, equipamentos
especializados, amostras biológicas de experimentos, doenças e técnicas para
aprimorar a saúde humana. A maioria das pesquisas utilizam amostras que são
armazenadas nos freezers a -80ºC. Esse é o caso de Katherine Rodrigues, que
guarda neles amostras de DNA para sua pesquisa de mestrado, cujos resultados
podem dar base para melhorar o tratamento de pacientes com câncer de mama.
“Dá um trabalho imenso conseguir essas
amostras, o projeto tem que ser submetido e aprovado pelo comitê de ética, é
necessário fazer parcerias com hospitais ou clínicas,  conseguir verba
para comprar os materiais, os pacientes têm que aceitar participar… É uma
caminhada longa até chegar na obtenção da amostra. É frustrante saber que todo
o seu trabalho pode se perder por algo que foge do seu poder”, diz Katherine.
 

No momento, o que alguns pesquisadores têm
feito são backups das suas amostras. “A gente está quadruplicando o gasto com
material e o tempo necessário, pra que se em algum momento ela perder as
amostras ela recomece de um momento mais próximo e não tenha de novamente
repetir os seis meses. Quando eu falo isso pra qualquer outro grupo de
pesquisa: olha, estamos fazendo uma terapia a longo prazo mas a cada mês eu
congelo todo o experimento para ter um backup, eles riem”, explica Diego sobre
o projeto de Karolynne. O backup, porém, não é uma opção para todos, como é o
caso de Katherine. “As minhas soluções demandariam uma verba que não temos como
conseguir. Se fossem instalados os geradores de energia, já seria uma ajuda
relevante”, explica.

Geradores não instalados

A FCE foi construída com dinheiro do Programa
de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais
(Reuni), no projeto foi previsto espaço para os laboratórios e a utilização de
geradores. Em outubro de 2014 a direção da faculdade enviou para a Prefeitura
dos Campi um projeto de instalação de dois geradores de energia. Desde dezembro
o processo está parado na Diretoria de Manutenção Predial (Dimap), setor
responsável por colocar os equipamentos em operação.
Segundo o diretor da Dimap, Marcio Marianno
Lisboa, não há previsão para a instalação, que tem apresentado problemas. “É
difícil dar previsão, porque são estudos que estão sendo realizados (sobre a
instalação dos geradores) e não são estudos fáceis”, explica Marcio. No momento
a FCE conta apenas com um No-Break, que sustenta a energia por poucas horas ou,
dependendo do equipamento, alguns minutos.

“Temos o dinheiro, a vontade, a necessidade,
tudo, mas estamos travados burocraticamente”, explica Diego. Karolynne sente
muita indignação diante da situação: “Eu vejo a pós como um investimento que o
Estado faz no profissional, e ele deve dar o devido retorno com pesquisas,
resultados e avanços científicos. É preciso mais qualidade na ciência produzida
no Brasil, o que é muito difícil quando se trabalha em condições insalubres,
sem o mínimo necessário que é o fornecimento de energia adequado. A gente aqui
faz mais que ciência, faz milagre! Não é possível que o mínimo não podemos
ter”.

Sem os geradores, a FCE depende unicamente do
fornecimento de energia da Companhia Energética de Brasília (CEB). Só em 2015 a
CEB registra mais de 340 mil reclamações sobre interrupção do fornecimento de
energia, um aumento de 42,7% em relação a 2014, segundo dados da Agencia
Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Eles explicam que há diversos motivos
para a queda de luz em época de chuva: raios podem atingir a rede, causando um
desligamento automático preventivo e podem também causar defeitos.
O período mais chuvoso do ano em Brasília é
entre novembro e janeiro, com uma média de precipitação que chega a atingir
250mm por mês. Até setembro a média é de 60mm, demonstrando o aumento
exponencial nas chuvas durante o fim do ano. Os dados são do Instituto Nacional
de Metereologia (INMET) e do Sistema de Organização Nacional de Dados
Ambientais (Sonda). Ou seja, nos próximos meses as chuvas vão aumentar, e com
elas a preocupação dos pesquisadores da FCE. 

Por Lucas Santos e Thaís Rocha / http://campus.fac.unb.br/

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