Pobre Contribuinte: Com chuva, é preciso sombrinha dentro dos ônibus.

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O dia de José Daniel Gonçalves, 38 anos, começa e termina na parada de ônibus. Não à toa, sempre que ele vai escolher uma casa para morar de aluguel com a mulher e os dois filhos, leva em conta a distância do imóvel aos pontos de partida e chegada do transporte público na região. O garçom, morador do Gama, é um dos cerca de 85 milhões de brasileiros que dependem do Estado para se locomover. Quanto mais rápido chegar em casa, melhor. E nessa conta, cada quilômetro vale muito.


Precisar do transporte público para ter garantido o direito de ir e vir no Brasil é um exercício de fé e paciência. José Daniel tenta estar de prontidão na parada antes do horário previsto. As linhas de ônibus, sabe ele, não respeitam os horários determinados. E não há quem faça a fiscalização de maneira eficiente. Não raras vezes, nem os trajetos preestabelecidos são obedecidos pelos motoristas, tão insatisfeitos com o trabalho quanto os usuários com o serviço prestado. Mesmo se antecipando, porém, o garçom chega a esperar uma hora e meia.

Dentro do ônibus barulhento, com cadeiras quebradas e sem o mínimo de conforto, José Daniel busca se distrair lendo as notícias de esportes no jornal que carrega debaixo do braço, ouvindo música no celular ou tirando um cochilo. Isso, claro, quando consegue lugar para se sentar. “É assim mesmo. Na época da eleição, aparece alguém prometendo alguma coisa e depois tudo segue do mesmo jeito”, comenta ele, recorrendo ao proliferado sentimento de descrença misturado com conformismo diante dos serviços públicos.

Na volta para casa, o garçom caminha duas quadras para aguardar o ônibus em uma parada longe de onde vários colegas já foram assaltados. O Estado não garante transporte nem segurança a José Daniel. Após 30 minutos de espera, o Correio o acompanhou até o Gama. Era quase meia-noite. “A vantagem é que não tem engarrafamento essa hora”, ameniza. Havia somente dois lugares desocupados. Quarenta minutos depois, José Daniel estava na rua onde mora. A família já dormia. “Agora, é tomar uma ducha e amanhã começar tudo de novo.”

Falha de gestão

Por mais que renove a frota de tempos em tempos e anuncie a ampliação de linhas de trem e metrô, o Estado se mostra incapaz de atender a necessidade de José Daniel e dos demais brasileiros por transporte público. Na avaliação do professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em logística e transportes Renaud Barbosa, o motivo é simples: não há no país uma gestão do transporte urbano. Além disso, acrescenta ele, o sistema está nas mãos de poucos, numa relação promíscua entre empresários e governos.

Com recursos desviados, impunidade e gestão falha, prossegue Barbosa, não causa espanto saber que, no Brasil, muitos ônibus são, na verdade, adaptações de carcaças de caminhões. “Um transporte público de má qualidade resulta em maus trabalhadores, que chegam ao serviço e em casa exaustos. Tudo isso impacta no PIB (Produto Interno Bruto) do país”, detalha o especialista, também alertando para as complicações de saúde pública provocadas pelo monóxido de carbono liberado pelos ônibus em condições precárias.

Triste realidade

A ineficiência do transporte público fez a estudante Fabiana Guedes, 25, reprovar em uma disciplina na escola. “Chegava sempre atrasada na aula porque o ônibus demorava a passar e perdia o conteúdo principal”, conta ela, que mora no Sudoeste e estuda na L2 Sul. “Fico me sentindo injustiçada”, resume, de pé na parada. “O tempo que fico aqui poderia estar descansando”, emenda o estudante Felipe Adriano, também 25, que só chega em casa, em Valparaíso de Goiás, pelo menos uma hora depois de embarcar.

Dependente do transporte público para trabalhar e estudar, o militar Randel Patrick das Neves, 21, dorme cinco horas por dia. Dentro ônibus, são três horas e 40 minutos diariamente, em pé ou sentado. Por semana, gasta R$ 60 com passagens, entre Sobradinho, onde mora, Esplanada dos Ministérios e Taguatinga. “Fico meio triste. O Brasil é uma potência, mas não faz as coisas acontecerem por falta de gestão”, diz ele, que confessa pegar lotação de vez em quando. “Se o Estado não dá conta, a gente precisa se virar para ir para casa”, justifica.

Todas as noites, a estudante Jemima Tavares, 22, aguarda o letreiro “Gama Leste”, onde mora, surgir em algum dos ônibus que trafegam na pista com movimento bastante reduzido. Ela conta que sempre carrega fones de ouvidos para se proteger do barulho do veículo que a leva até em casa. “É triste. E quando tem goteira? Na hora da chuva, tem gente que abre sombrinha dentro do ônibus. Não é brincadeira”, relata.

A Secretaria de Transportes do Distrito Federal informa que concluiu licitação para renovar a frota de 2.580 ônibus (do total de 3,6 mil). O tempo médio dos carros, atualmente, conforme o órgão, é de 6,4 anos. Também explica que novos ônibus possuem GPS e, por meio da tecnologia, será possível identificar problemas com mais facilidade, melhorando a fiscalização e, consequentemente, prestando um serviço mais eficiente. A secretaria também promete integração, de verdade, do sistema.

Por Blog do Vicente

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