Professores de Ceilândia e bancada evangélica da Câmara Legislativa estão em pé de guerra

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(Correio Braziliense) Os professores da rede pública e a bancada evangélica da Câmara
Legislativa estão em guerra. Os profissionais do ensino denunciam uma interferência
dos parlamentares na educação e reclamam da intromissão de distritais na
escolha do conteúdo ministrado em sala de aula. Dois episódios recentes
contribuíram para azedar a relação. A deputada Sandra Faraj (SD) enviou ofício
a um colégio em Ceilândia para questionar trabalhos escolares com conteúdo LGBT e cobrou
“providências legais” contra o professor responsável pela disciplina. 
Já o distrital Rodrigo Delmasso (PTN) mandou documento a uma outra escola de Ceilândia que
organizou uma peça teatral sobre cultura africana, para reclamar de referências
ao candomblé.
Esse é mais um episódio de atrito entre deputados evangélicos e os
professores. No ano passado, durante um debate do projeto Escola sem partido,
de autoria de Faraj, um grupo de docentes entrou em confronto com seguranças da
Câmara. Os professores classificam a proposta, que proíbe a “doutrinação
ideológica dos estudantes”, como projeto de lei da mordaça. Por conta das
críticas, a parlamentar entrou na Justiça com uma ação por danos morais contra
o Sindicato dos Professores. O processo tramita na 15ª Vara Cível de Brasília.
O caso mais recente desse conflito teve como alvo o Centro Educacional 6
de Ceilândia. Um professor da unidade passou um trabalho em grupo aos
estudantes, em que eles deveriam debater um entre os seguintes temas:
homofobia, integração entre gêneros, pansexualidade, relações poliamorosas e
transexualidade. Sandra Faraj recebeu reclamações com relação ao assunto e
enviou ofício à direção da escola pedindo “esclarecimentos” e “providências
legais cabíveis”. Ela embasou seus questionamentos no Plano Distrital de
Educação, aprovado pela Câmara Legislativa em 2015. Por pressão da bancada
evangélica, o texto excluiu referências a áreas como sexualidade e gênero.
O doutor em educação Carlos Augusto de Medeiros, professor da
Universidade de Brasília, critica duramente a postura da parlamentar e garante
que, apesar da redação final do Plano Distrital de Educação, isso não significa
que temas como homofobia sejam proibidos em sala de aula. “A separação entre
Igreja e Estado foi importante para o desenvolvimento humano e para a ciência.
Agora, esses segmentos de parlamentares querem colocar em risco garantias
constitucionais, como a liberdade de expressão e de ensino. É preciso que haja
um grande debate em defesa das prerrogativas dos professores, que têm liberdade
para desenvolver seu trabalho”, afirma o especialista.

Outro episódio que gerou a ira dos professores teve como protagonista
Rodrigo Delmasso. O Centro Educacional 7, o maior da Ceilândia, teve um projeto
aprovado pelo Ministério da Educação para receber recursos reservados a
iniciativas sobre a cultura africana. Os alunos da disciplina de educação
artística desenvolveram uma peça teatral sobre o assunto. No dia da
apresentação, os alunos deveriam ir de branco. Um dos pais procurou o gabinete
de Delmasso para denunciar que os estudantes teriam sido coagidos a fazer
danças e a usarem roupas em referência ao candomblé. O parlamentar enviou
ofício à escola, dando prazo de 24 horas para esclarecimentos.
A situação revoltou a diretora da escola, Simone Rebouças. “A escola é o
espaço de debate sobre todos os temas. É aqui que a comunidade se empodera e
que os alunos se preparam para a vida. Apesar de todas as dificuldades, como
falta de recursos e sala de aulas lotadas, a gente se esforça para fazer um bom
trabalho. Aí, alguns deputados aparecem para insinuar que os professores querem
doutrinar e causar danos aos alunos”, desabafou Simone. “Falar sobre política,
homofobia ou cultura africana, de uma maneira correta e enriquecedora, pode
causar algum constrangimento? Não vejo como isso é possível.”A diretora da
escola disse que os alunos vestiram branco em defesa da cultura de paz, e não
como apologia ao candomblé.

A Secretaria de Educação enviou nota afirmando que “o instrumento
administrativo do ofício não é considerada uma via adequada para se questionar”
o Plano Distrital de Educação e afirma que a pasta “trabalha por uma educação
para a diversidade.”

*Informações Helena Mader do Correio Braziliense

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