Rapper de Goiás deixa parlamentares de saia-justa.

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“Quem sou eu para discutir cinismo com os especialistas no assunto?”

A notícia é de dezembro, mas só agora ganha as redes sociais. No dia 8 de dezembro, o rapper Cláudio Roberto, mais conhecido como Claudinho, do grupo Testemunha Ocular, foi o protagonista de uma cena que deu o que falar na Assembléia Legislativa de Goiânia e deixou vários deputados indignados.

Claudinho foi um dos 18 homenageados da sessão especial promovida pelo deputado Mauro Rubem (PT) em comemoração aos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O rapper, que é presidente da União Bate Cabeça do Cerrado (UBC), a qual reúne músicos, dançarinos e produtores de hip hop e membro do Centro de Cidadania Negra de Goiás (Ceneg – GO), recebeu da Comissão dos Direitos Humanos a Medalha Pedro Ludovico por trabalhos de afirmação da cultura negra, combate ao racismo e violência social realizados em escolas e comunidades carentes.aos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O “agradecimento” veio em forma de versos, e foi neste instante que o mal-estar tomou conta do plenário Getulino Artiaga. De posse do microfone, embalados pela batida forte do rap, Claudinho, Mc Lethal e Mortão, todos integrantes do grupo Testemunha Ocular, deram ritmo à máxima de que todo político é “ladrão” e propagaram pelos quatro cantos do salão a impressão que têm da Casa:

“Político rouba, político rouba/
dentre mil um roda.
Os despolitizados viram massa de manobra/
estão tão acomodados que se viram com as sobras/
Sobra de ignorância, não tem para onde correr/
Existe um abismo entre o povo e o poder”.

Logo o cerimonial começou a diminuir o volume do som instrumental que acompanhava o rap. O grupo continuou cantando. No final da música, muitos aplaudiram, outros riam e os rappers se retiraram.
Veja aqui o vídeo com a cerimônia e a apresentação do rapper

No dia seguinte os deputados quiseram cassar a medalha de Claudinho. “Achei a música de profundo mau gosto. Foi falta de educação, era uma sessão solene, ele cuspiu na medalha que recebeu. Ingratidão com todos que a concedemos. Sou a favor da cassação da medalha. O ideal, porém, é que ele tenha elegância e devolva”, defende o deputado Romilton Moraes (PMDB). A deputada Betinha Tejota (PSB) pensa até em processar o cantor por danos morais. “Deve ser uma pessoa muito mal resolvida, que vota mal e traumatizado. Foi falta de caráter, ato de cinismo”.

Rubem, deputado que teve a iniciativa de homenagear o rapper, é contra a cassação da medalha. “Seria absurdo. A Casa tem que viver com o contraditório. Não aprovo a canção, mas a manifestação de uma música de um CD comercial não reduz o mérito de Claudinho na luta contra o racismo”.

Claudinho comentou as palavras dos políticos: “Quem sou eu para discutir cinismo com os especialistas no assunto?”, rebate Claudinho. “Se ela tivesse vindo de onde vim, se tivesse sido cerceado seu acesso à educação e lazer, talvez entenderia… talvez”.

“Aproveitamos a oportunidade para mostrar que o povo vota sempre nos mesmos corruptos. Não atacamos ninguém. Mesmo porque, se fôssemos fazer uma música para cada político corrupto, daria uma discografia gigante”, diz Claudinho.

O rapper, que só concluiu o ensino médio, filho de uma dona de casa e de um metalúrgico, disse que a medalha não passa de objeto simbólico. “É um metal preso em uma cordinha. Perguntaram se minha mãe não me ensinou que devemos ter educação na casa dos outros. Não entendem que a Casa não é deles, é do povo”.

Perguntado por jornalistas locais se seria político, Claudinho disparou: “Eu já sou. Essa é minha forma de fazer política”.



Fonte: http://www.gamalivre.com.br /culturahiphop / “Brasília por Chico Sant’Anna

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