Saúde Pública no DF: um caminho sem direção.

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Durante toda a campanha que antecedeu as eleições de 2010, o governador Agnelo Queiroz reiterou, diversas vezes, que a saúde era o carro-chefe da sua lista de prioridades. Porém, parece que o tão anunciado “novo caminho”, seu slogan na época, está sem rumo. A saúde pública do Distrito Federal continua um caos. É o que afirmam especialistas, colocando em xeque ponto a ponto os itens do programa de governo do petista.

Ao todo, foram listados 13 compromissos. Neles, mais de 120 tópicos. Porém, as promessas não saíram do papel. Inclusive a maior delas: de que o próprio gestor do GDF assumisse a pasta de saúde.
Outro problema, aponta o promotor de Saúde do Ministério Público do DF, Jairo Bisol, é a ausência de um planejamento de gestão. “Na verdade, o que se teve nesses três anos foi um atraso em relação à   saúde pública, especialmente no que diz respeito à contratação de médicos”, destaca.
O primeiro compromisso era reestruturar o SUS no DF. Dentro do item  estão pontos como efetivar a Atenção Básica de Saúde  e criar Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em todas as regiões. Sobre o primeiro deles, o promotor constata: “Agnelo mudou o modelo de gestão? Não. Pelo contrário, se viu embaraço na contratação de profissionais e não conseguiu dar conta do deficit. Então, os anúncios com números fixos de contratação não retratam a realidade da incapacidade do governo de responder adequadamente a esse problema”.
Quanto à atenção básica, como mostra a lista, o promotor de saúde avalia: o atual cenário coloca o DF entre os piores índices do País. A política para este ponto deveria ter como base um conjunto de ações, de caráter individual e coletivo, situadas no primeiro nível de atenção dos sistemas de saúde, voltadas, principalmente, à promoção da saúde, à prevenção de agravos, tratamento e a reabilitação. Ou seja, o objetivo é manter os cidadãos saudáveis. Contudo, como mostra reportagem de quinta-feira do JBr, a rede pública tem deficit em atendimento que abrange 1,5 milhão de pessoas sem tratamento. 
 
“Por falta de recursos não é”
 
“Estou com cólica renal. Meu primeiro passo, claro, foi procurar a UPA, que não resolveu. Eles me mandaram   voltar para a casa e tomar buscopan. Só aumentou a dor”. O relato é da estudante Marla Rodrigues, 31 anos. Há mais de três horas na fila  do Hran, ela confessa   que quando pode evitar, nem procura a rede pública. “Sinto-me totalmente insegura, abandonada. Olha aí, tem gente sofrendo mais do que eu e eles não estão nem aí”, diz, apontando para outros pacientes.
 
“Em tese, para que você não tenha desperdícios, com gastos com ferramentas de alta complexidade, é mais barato manter a população saudável. Então, você precisa colocar como base a atenção básica, a saúde preventiva, a promoção a saúde. E esse desafio simplesmente foi perdido pelo governo Agnelo. E por falta de recursos não é”, dispara o promotor Jairo Bisol. 
Segundo ele, o DF tem   dinheiro suficiente para  investir na atenção primária. “E grande parte do dinheiro, que vem da área federal, tem níveis de inexecução a ponto de ficarem os recursos acumulados todos, aplicados no mercado financeiro, por não serem executados”, afirma.
 
pontodevista
 
Especialista em gestão pública, José Matias-Pereira acredita que o péssimo serviço oferecido não é nada mais do que reflexo da fragilidade e deficiência da saúde pública na região. “A capacidade de gestão do atual governo deixou muito a desejar. O atual cenário da saúde, pasta que Agnelo prometeu ficar à frente, é resultado de uma administração tumultuada”, ressalta. Para ele, o petista não soube montar uma equipe competente e preparada para as demandas da saúde da região. “A política se sobrepôs às reais necessidades da Secretaria de Saúde”, completa o docente da Universidade de Brasília (UnB).
 
Atenção primária quase não existe
 
De acordo com o texto de campanha de Agnelo, a meta era “regular e articular redes de atendimento e cuidado integrais onde a paciente terá como porta preferencial de entrada o Saúde da Família, acabando com a fila nas cirurgias eletivas, das consultas com especialistas, dos exames complementares, das internações eletivas e emergenciais, assim como dos tratamentos complexos”. Porém, moradores da Candangolândia, por exemplo, reclamam que a cidade não conta com equipes do programa Saúde da Família para realizar o atendimento domiciliar. “Temos, no DF, um dos piores índices do Brasil no que diz respeito à atenção primária”, observa o promotor de Saúde do Ministério Público, Jairo Bisol.
 
Atualmente, o DF conta apenas com quatro UPAs, número muito aquém das 31 Regiões Administrativas do DF. Isso gera, quase sempre, superlotações dos hospitais regionais.
 
Sem informações
 
No Hospital Regional do Paranoá, que atende também moradores do Itapoã, Varjão e São Sebastião, as cirurgias estão sendo remarcadas com frequência. O problema, aponta o filho de uma paciente idosa, é que eles não informam novas datas e ficam “sempre enrolando para dizer quando vai ser feita”. Amélia Cantuário, 83 anos, fez o jejum por 12 horas, seguindo orientações médicas, esperando sua vez de ser operada.
 
Na noite de ontem, após o fechamento desta edição, Amélia Cantuário faleceu na unidade de saúde.
 
Enquanto o Programa de Governo (disponivel em www.agneloqueiroz.com.br/programa.php) prega a melhoria dos serviços públicos de saúde, com inúmeros compromissos assumidos, a população continua nas filas por consulta, emergências e cirurgias.
 

Impotência

 
Sebastião Mattos (foto ao lado), 57 anos, esperava por mais de quatro horas para ser atendido no Hospital do Guará, quando desabafou: “Sinto-me impotente, ignorado pelo governo”. E completa: “Ele prometeu e não vai cumprir, simples assim. É essa a importância que o governador deu para a saúde”, lamenta. Ele esperava um atendimento devido a fortes dores no ombro.
 
versão oficial
 
Procurado, o  Governo Agnelo argumentou que   inaugurou 4 UPAs, 7 Clínicas da Família, reformou mais de 30 centros de saúde e fez investimentos em todos os hospitais. Até o final do ano,   duas UPAs serão entregues e estarão iniciadas as obras para construir   quatro. Serão inauguradas as Clínicas da Família de Sobradinho e Recanto das Emas. Estão previstos  os hospitais do Trauma (anexo ao Hospital de Base) e do Gama. Os números de leitos de UTI mais que dobraram. Também investiu-se na saúde da família: aumentando a  cobertura de 12% para 40% em média.
 
Culpa não é do gestor
 
Outro ponto polêmico do programa de governo de Agnelo é o compromisso de “nomear gestores das unidades de saúde comprometidos com a saúde pública”, mencionado no segundo item da lista.
 
Para o promotor de Saúde Jairo Bisol isso não aconteceu. “Em primeiro lugar, um dos maiores problemas para um gestor de saúde, em qualquer unidade da federação, se dá pelo grau de ingerência do político na gestão técnica. Sistemas complexos e sensíveis, como o sistema de saúde, não deveriam estar expostos à lógica perversa das práticas políticas desse país. É isso o que acontece no DF”, aponta. Porém, ressalta, “o gestor de saúde não tem grande autonomia em relação ao governador. Então, acho que o  grande responsável pela situação da saúde da região é o governador, e não o gestor”.
 
“Revoltante”
 

À espera de atendimento no Hospital do Guará, a paulista Elisângela Borges (foto ao lado), recém-chegada ao DF, esperava  há pelo menos três horas por uma consulta no clínico geral. “Estou com muita falta de ar. Está impossível trabalhar assim”, diz. Sobre a demora e o que diz o Programa de Governo, ela lamenta: “Os serviços estão péssimos. É vergonhoso e revoltante que tenha prometido tudo isso”.

 
Faltam médicos e tecnologias
 
Os relatos de pacientes mostram, sobretudo, que o GDF não consegue cumprir a meta do item quatro do Programa: garantir todos os profissionais e tecnologias que contribuam para a preservação e o cuidado com a saúde. Prova disso está no depoimento de uma paciente: “você fala com a atendente sobre a demora porque a gente se estressa e ela diz que está faltando médico”.
 
Piores índices
 
No Brasil existem apenas dois mil médicos especializados em medicina da família cadastrados na Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), entidade que congrega médicos atuantes em postos e outros serviços de Atenção Primária em Saúde. Na contramão dos quase 6 mil km² de extensão do DF, até hoje, em quase três anos de governo, quatro clínicas da família foram inauguradas na região.
 
Agnelo assumiu o governo em janeiro de 2011. No ano seguinte, a Universidade de Brasília publicou estudo intitulado “O orçamento da saúde pública no Distrito Federal em 2011: análise sobre o direito à atenção primária em saúde” que apontou a execução de apenas 21,85% do orçamento previsto para a área, “ostentando, dessa forma, um dos piores índices de desempenho do SUS”.

Informações Jornal de Brasília

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