Sol Nascente em Ceilândia, deve se tornar a maior favela da América.

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Vista geral do Sol Nascente : após três décadas de ocupação irregular e da ação de grileiros, a antiga área rural sofre com a falta de infraestrutura
Adiarista Paula Alves Ferreira, 42 anos, aponta para o fim da rua esburacada, no Trecho 1 do Condomínio Sol Nascente, em Ceilândia. Mostra que a região ocupada por barracos e biroscas há 12 anos não passava de um enorme cerrado. No período, ela viu casas se multiplicarem. Com a chegada de tantos moradores,

os problemas não demoraram a aparecer. As terras da chácara de Paula, antes férteis, pararam de dar frutas e verduras devido à contaminação do solo. O lugar, tranquilo, tornou-se palco de crimes de toda ordem. Em pouco mais de uma década, a zona rural escolhida pela trabalhadora para viver com a família se transformou na segunda maior favela da América Latina, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Só fica atrás da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Três décadas atrás, os primeiros chacareiros chegaram à região. Em 1999, grileiros começaram a atuar no local, ainda no governo Cristovam Buarque, mas a migração em massa teve início no terceiro mandato de Joaquim Roriz, em 2004. Com 61 mil moradores e crescimento populacional desordenado, o Sol Nascente caminha para ocupar o topo do ranking de maior comunidade pobre do país — incrustada em um morro, a comunidade carioca da Rocinha praticamente não tem mais espaço físico para se expandir. Lideranças comunitárias garantem que, hoje, são pelo menos 100 mil pessoas na região do DF — o GDF não reconhece o número.
Mesmo considerando apenas os dados oficiais, o Sol Nascente tem mais gente do que em 17 regiões administrativas do Distrito Federal. Fica à frente de Sobradinho, do Recanto das Emas, do Itapoã e de Brazlândia, por exemplo. Situado a menos de 35 quilômetros do Palácio do Planalto, ainda abriga famílias em situação de extrema miséria. A favela brasiliense também concentra um elevado número de analfabetos. Mais de 4% dos moradores não sabem ler nem escrever. Quase 30% só concluíram o ensino fundamental. Os dados estão num estudo encomendado pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sedhab) para fins de regularização (leia ilustração na página 22).
Durante cinco dias, o Correio percorreu as vielas do local. O retrato do parcelamento irregular, carente de praticamente todos os serviços e cravado no coração da maior e mais populosa cidade do DF, coloca nos ombros do governo uma enorme responsabilidade. Sem centros de saúde, unidades próprias de segurança e transporte de qualidade, o Sol Nascente parece seguir na contramão do progresso. “Se juntarmos com o (Condomínio) Pôr do Sol (também em Ceilândia), é, sem dúvida, a maior dor de cabeça para o governo em relação a questões fundiárias”, admite o secretário da Sedhab, Rafael Oliveira.
Mas apesar de os indicadores sociais colocarem o lugar como um dos mais pobres da capital, muita gente decidiu apostar nele. O empresário Aclésio Rodrigues, 30 anos, veio de São Paulo. Dono de lojas de material de construção no interior paulista, ele viu a possibilidade de ganhar dinheiro no condomínio. Há dois anos, montou um pequeno estabelecimento. As vendas de areia, cimento, vigas e tijolos não pararam de crescer, e Aclésio projeta abrir uma filial. O bom momento o fez trazer para Brasília a mulher, a professora Tânia Fagundes, 36, e o filho, de 3. “É um lugar com potencial incrível. Vendo mais do que em São Paulo”, comemora o empresário.
Paula Ferreira chegou ao local há 12 anos: na época, paisagem de cerrado
Voluntários
Aclésio pegou carona no crescimento desordenado do Sol Nascente. Por todos os lados, existem construções à revelia do Estado. Pelo processo de regularização, novas edificações são proibidas, mas a fiscalização não consegue inibir a atuação dos grileiros. “O governo derruba uma casa e, no outro dia, duas estão em pé”, diz o armador Salvador da Trindade, 33 anos. Há quatro meses, ele pagou R$ 35 mil por uma casa de seis cômodos no Trecho 2 do condomínio. No último 20 de março, uma forte chuva abalou a estrutura do imóvel. O risco de desabamento fez a Defesa Civil interditar a residência. Salvador passou a morar de favor. “Não assinei nenhum documento ao comprar. Foi tudo na boa-fé. Eu dei o dinheiro e trouxe a minha família. Agora, perdi R$ 35 mil e estou sem lugar para morar”, lamentou.
Salvador fazia parte de um grupo de moradores do condomínio que vive sob risco. De acordo com a pesquisa encomendada pela Sedhab, 16% das famílias do Sol Nascente habitam terras propícias a enchentes. Uma inundação por pouco não causou uma tragédia no barraco da dona de casa Célia Santana, 38 anos. Também em 20 de março, uma forte correnteza invadiu os cômodos e cobriu a cama onde a mãe dela, de 80 anos, estava deitada. “A minha mãe não anda mais. Tive de colocá-la às pressas em cima do beliche. É o preço que pagamos por morar em um lugar ilegal. Ou aceitamos a condição ou ficamos na rua”, lamenta.

Com uma fragilizada infraestrutura e sem espaços públicos voltados para o bem-estar da comunidade, cabe aos moradores suprir a ausência do poder público. Muitos fazem trabalhos voluntários para deixar o lugar um pouco melhor. Paula, a personagem do início da reportagem, é um exemplo. Mãe de seis filhos, ela cansou de levar os meninos para jogar futebol no P Norte, a três quilômetros de casa. Caminhava pelo menos 40 minutos com os garotos. Sozinha, resolveu construir um campinho. Retirou o lixo, fez um desvio para o esgoto correr e aterrou parte da rua. Com a ajuda de vizinhos, improvisou traves feitas com ferros descartados em entulhos. “Não tinha um pedaço de chão limpo para essa garotada brincar. Tento sempre manter bonito para eles. É tudo por amor à comunidade mesmo”, comenta a diarista.
A situação deve melhorar um pouco com a injeção de R$ 220 milhões no setor. O recurso do governo federal será usado na urbanização das ruas. O secretário Rafael Oliveira diz que uma das prioridades será a construção de redes de águas pluviais. “É o mais urgente a se fazer. Se não criamos estruturas para escoar a água da chuva, não adianta colocar asfalto, porque as correntezas destroem tudo”, ressaltou.
Explosão demográfica
Com uma população estimada em 70 mil habitantes, a Rocinha é, oficialmente, a maior favela do Brasil. O Condomínio Sol Nascente tem 68 mil, de acordo com um estudo encomendado pela Secretaria de Habitação.
No entanto, há quem defenda que a região conte com mais de 100 mil moradores em virtude do rápido crescimento das invasões, principalmente nos últimos quatro anos.
Criatividade e sucesso
 
O ditado popular diz que a propaganda é a alma do negócio. Valdinar Araújo, 33 anos, seguiu à risca a máxima e, sem dinheiro, apostou no improviso para ganhar clientes. Ele é dono de uma oficinas de motos no Condomínio Sol Nascente. Para chamar a atenção de quem passa, Valdinar decidiu colocar a carcaça de uma motocicleta suspensa em uma base de metal. Na lataria do veículo, escreveu “Jesus”. A geringonça fez sucesso. O ponto se tornou referência para quem quer consertar veículos de duas rodas. Antes, como empregado em uma oficina de Ceilândia, Valdinar ganhava um salário mínimo por mês. Hoje, a renda livre dele ultrapassa R$ 4 mil. “É um bom lugar para investir. As pessoas querem consertar suas motos perto de casa. Sem contar que os buracos daqui ajudam muito”, brinca o microempresário.
SAULO ARAÚJO / Correio Brasiliense

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