UNE, Do cabresto ideológico ao maná estatal.

Compartilhe essa matéria

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on telegram
Apesar de subsidiada com R$ 42,8 milhões do
governo Lula, a UNE não desiste de lutar pela destruição do Estado
capitalista que a mantém, à revelia dos estudantes que diz representar
 
Fernando Leite/Jornal Opção
“Eu competia com o que eles
falavam. E o povo acreditou mais em mim” – Luiz Inácio Lula da Silva,
ex-presidente da República
 

José Maria e Silva


Segundo a mitologia intelectual, que tende a ser mais dogmática do que a
mitologia religiosa, juventude é sinônimo de rebeldia santa, motivada
sempre por uma indignação espontânea, que facilmente se transforma em
protesto contra as injustiças. Na América Latina, em face dos muitos
golpes militares, o mito da juventude idealista é ainda mais forte, uma
vez que os estudantes participaram ativamente da luta contra as diversas
ditaduras do continente. O Brasil não foge à regra e, quando o assunto é
o idealismo dos jovens, a União Nacional dos Estudantes (UNE) concorre
com o célebre quadro de Eugène Delacroix — ela é a imagem histórica do
protesto, a juventude conduzindo o povo.

Desde o final da década de 40, quando a UNE se engajou na luta pelo
petróleo, passando pelos protestos contra o regime militar, foram muitas
as manifestações estudantis que tiveram repercussão na vida nacional,
quase sempre do lado oposto ao poder. A última delas foi o movimento dos
“caras-pintadas”, que contribuiu para a queda de Fernando Collor, em
1992. Por isso, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, a
imprensa tem criticado a excessiva proximidade entre a UNE e o governo,
com autoridades do poder petista desfilando nos congressos da entidade
estudantil como se estivessem em casa.

Foi o que se viu em Goiânia na semana retrasada, quando a União
Nacional dos Estudantes realizou seu 52º congresso, considerado o maior
de sua história. O ex-presidente Lula e vários ministros do governo
Dilma Rousseff discursaram no evento, que, segundo a imprensa, teve a
participação de cerca de 8 mil estudantes. O congresso culminou com a
eleição do novo presidente da UNE, o estudante Daniel Illiescu, de 26
anos, aluno de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). Ele assume o lugar do estudante Augusto Chagas, de 29
anos.

Petrobras, a mamãe-banca-tudo

Em seu discurso no congresso da UNE, Lula defendeu a entidade e
criticou os veículos de comunicação, afirmando que, quando presidente,
suas falas eram um contraponto ao noticiário da imprensa: “Eu competia
com o que eles falavam. E o povo acreditou mais em mim”. O congresso
serviu até de palanque para o ex-presidente reforçar a pré-candidatura
do ministro da Educação, Fernando Haddad, à Prefeitura de São Paulo. O
ministro dividiu o palanque com Lula e, no dia seguinte, segundo a
“Folha de S. Paulo”, o ex-presidente voltou a defender o nome de Haddad à
sucessão de Gilberto Kassab.

Ao ser ovacionado pelos estudantes da UNE, Lula poderia evocar o
defunto Brás Cubas, ao se lembrar do compungido discurso de um amigo ao
pé de sua sepultura: “Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte
apólices que lhe deixei”. Mas Lula é uma espécie de Joe Gould, o
“Professor Gaivota” do jornalista Joseph Mitchell, e não deve ter lido
Machado de Assis. A diferença é que o mendigo-filósofo nova-iorquino
dizia compreender a língua das gaivotas, ao mesmo tempo em que escrevia a
“história oral” de seu tempo, registrando conversas alheias, enquanto
Lula acredita fazer ele próprio a história oral da nossa época, falando
por todos os cotovelos, seus e nossos.

Só por isso é que o ex-presidente não consegue admitir que as críticas
da imprensa são procedentes. Caso contrário, teria que se render aos
fatos que a imprensa vem registrando sobre a UNE. Apenas o congresso da
entidade em Goiânia custou ao governo federal muito mais do que o elogio
fúnebre custou a Brás Cubas. O evento, com despesas estimadas em R$ 4
milhões, recebeu patrocínio de empresas estatais, como a Petrobrás, a
mamãe-banca-tudo do Estado brasileiro. O restante veio da taxa de
inscrição dos próprios estudantes, mais a ajuda do Governo de Goiás e da
Prefeitura de Goiânia. Por isso é que o congresso foi chamado de
“chapa-branca”, inclusive por setores do movimento estudantil.

Torneiras abertas à “rebeldia”

Mas, verdade seja dita, movimento estudantil a soldo de governos e
partidos não é novidade. Talvez seja a regra. O congresso anterior da
UNE, realizado em 2009, em Brasília, também contou com financiamento
oficial. Segundo editorial do jornal “O Estado de S. Paulo”, publicado
em 20 de julho de 2009, só o Ministério da Educação investiu R$ 600 mil
naquele evento, que também recebeu R$ 150 mil do Ministério da Justiça;
R$ 100 mil da Petrobrás; 50 mil do Ministério da Ciência e Tecnologia,
além de verbas da Caixa Econômica Federal, dos Correios, dos Ministérios
da Cultura e do Trabalho e das Secretarias Nacionais de Direitos
Humanos e Juventude, totalizando R$ 920 mil em patrocínio.

Na época, as críticas da imprensa foram até mais acerbas do que agora. E
com razão. Realizado em plena pré-campanha para a eleição presidencial
do ano seguinte, o Congresso da UNE de 2009 foi um comício oficial, em
que a maioria dos estudantes esgoelava o nome de Dilma Rousseff, uma
minoria gritava o nome de Ciro Gomes e todos ovacionavam o presidente
Lula. A então presidente da UNE, Lúcia Stumpf, orgulhou-se do fato de
que, em 71 anos de sua história, era a primeira vez que a entidade
convidava um presidente da República para seu congresso. Em decorrência
dessa ligação umbilical com o governo, a UNE, mesmo ostentando uma falsa
neutralidade no primeiro turno das eleições de 2010, mergulhou de
cabeça na campanha de Dilma Rousseff no segundo turno, ajudando a
demonizar seu ex-presidente, o tucano José Serra.

Desde que o PT chegou ao poder, a UNE vive do maná estatal. No governo
tucano, a entidade recebeu apenas duas verbas expressivas: R$ 100,8 mil
do Ministério da Educação, em 1995, e R$ 1,036 milhão do Ministério da
Cultura, em 2002, mais uns trocados (R$ 75 mil) da Universidade Federal
do Espírito Santo, totalizando R$ 1,137 milhão. Já no governo Lula, as
torneiras do dinheiro público perderam a rosca e, só até abril de 2010,
quando a ONG Contas Abertas fechou seu levantamento, jorraram nos cofres
da UNE quase R$ 12,9 milhões — um aumento de 1.031% em relação ao
montante gasto com a entidade pelo governo tucano.

A maior parte dessa verba foi repassada à UNE pelo Ministério da
Cultura, num total de R$ 8,8 milhões. Em seguida, aparece o Ministério
da Saúde, com um repasse de R$ 2,8 milhões. Os demais órgãos do governo
que também deram dinheiro à entidade durante os dois mandatos de Lula
foram: Ministério dos Esportes (R$ 449,6 mil); Fundo Nacional de Cultura
(R$ 434,4 mil); Presidência da República (R$ 184,9 mil); Ministério da
Ciência e Tecnologia (R$ 101,5 mil); e Secretaria Especial de Política
para as Mulheres (R$ 27,7 mil). Em média, a UNE recebeu R$ 1,8 milhão
por ano.

E Lula tem alguma razão

Mas a estatização branca dos estudantes vai além. Passada a eleição de
Dilma Rousseff, faltando apenas duas semanas para concluir seu mandato,
como mostra o próprio Portal da Transparência do governo federal, o
presidente Lula liberou R$ 44,6 milhões para a UNE e mandou depositar na
conta da entidade, em 17 de dezembro de 2010, a maior parte desse
dinheiro — R$ 30 milhões. Os R$ 14,6 milhões restantes ficaram para o
orçamento deste ano. Trata-se de uma indenização do Estado à UNE, via
Comissão de Anistia, pelo fato de sua sede, na Praia do Flamengo, no Rio
de Janeiro, ter sido destruída por um incêndio em abril de 1964, logo
no início do regime militar.

Com mais esse repasse milionário, o maná estatal da UNE durante o
governo Lula totalizou R$ 42,872 milhões, o que dá uma média de R$ 5,3
milhões por ano. Isso significa que, com a chegada de Lula ao Planalto,
os repasses de recursos públicos à UNE tiveram um aumento de 3.668% em
relação aos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, transformando a
entidade numa espécie de estatal estudantil. Impossível, portanto, não
haver quem a chame de “chapa-branca”, como Lula gostaria que não
houvesse, uma vez que seu sonho foi sempre a unanimidade e qualquer
coisa menos do que isso o irrita profundamente.

Apenas num ponto, o ex-presidente tem razão. Em seu discurso no
Congresso da UNE, com aquele português de cartilha do MEC, Lula observou
que é comum o governo e as estatais investirem em publicidade e
afirmou: “Você liga a televisão e vê propaganda de quem? Quem é a
propaganda do futebol brasileiro? Quem é a propaganda das novelas? Para
eles, é democrático. Para vocês, é chapa-branca”. De fato, não é só a
UNE que conta com farto e indevido patrocínio do governo. O futebol —
uma corrupta e bilionária atividade — é fortemente financiado por
prefeituras, Estados e União, que não hesitam em tirar dinheiro da boca
das crianças para colocar na mesa farta de cartolas e jogadores. Mas a
imprensa não diz nada, pois, além de lucrar com o esporte, ela teme
blasfemar contra a religião do povo.

Filha da ditadura de Vargas

Mas a razão parcial do ex-presidente não minimiza a gravidade do
problema. Pelo contrário, ajuda a elucidá-lo. Ao assumir que seu governo
financiou praticamente tudo, Lula confessa que o Brasil voltou à Era
Vargas, quando um Estado de inspiração fascista punha a sociedade para
girar em torno de si. A própria União Nacional dos Estudantes foi criada
com o apoio do ditador Getúlio Vargas, no 1º Congresso Nacional dos
Estudantes, em 11 de agosto de 1937, às vésperas da implantação do
Estado Novo. A exemplo de Lula, Vargas buscava cooptar corporações,
tanto que, em 18 de novembro de 1930, criou por decreto até a Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB).

Essa ligação umbilical da UNE com o Estado não é boa para os líderes
estudantis, pois pode servir de estágio para futuros políticos
corruptos. Uma reportagem de capa do jornal “O Estado de S. Paulo”,
publicada em 29 novembro de 2009, relata que “a UNE fraudou convênios,
forjou orçamentos e não prestou contas de recursos públicos recebidos”.
Segundo o jornal, “a entidade apresentou até documentos de empresa de
segurança fantasma para conseguir aprovar patrocínio para encontro
nacional em Brasília”. O “Estadão” afirma ainda que pelo menos nove
convênios celebrados com o Ministério da Cultura, totalizando R$ 2,9
milhões, es-tavam em situação irregular.

Ouvido pela reportagem do jornal, o então presidente da UNE, Augusto
Chagas, negou que tenha havido má-fé da entidade. “A UNE também tem seus
problemas administrativos. É uma organização construída por jovens, tem
uma série de problemas, limites na sua condição administrativa”, disse,
prometendo devolver o dinheiro, caso fossem comprovadas as
irregularidades. Um dos convênios previa a produção de 10 mil livros e
um documentário sobre a história da entidade. Segundo o jornal, a UNE
teria 60 dias para prestar contas ou restituir em 30 dias as verbas não
usadas, mas “não fez uma coisa nem outra”.

Diretório vitalício do PC do B

Convém ressaltar o que há de errado com essa fala do presidente da UNE.
Ele tenta justificar a denúncia alegando que a entidade que preside é
“construída por jovens”, por isso, seria compreensível os “limites na
sua condição administrativa”, levando, sem querer, às irregularidades
apontadas. Ocorre que a UNE, quando se arvora a ditar os rumos do país,
não se julga incapaz disso por ser jovem. Pelo contrário, a juventude,
nesse caso, é apresentada como qualidade, sinônimo de independência e
idealismo. Por que, então, seus dirigentes se escondem por trás da pouca
idade quando são chamados a dar conta das verbas que recebem do erário
público?

A resposta a essa pergunta exige um artigo à parte, tratando do culto à
juventude que impera na sociedade e vai muito além da UNE, ainda que
ela seja um de seus principais instrumentos. Por enquanto, quero chamar a
atenção para um equívoco recorrente da imprensa sempre que trata do
movimento estudantil. Por trás da acusação dos jornais de que a UNE se
tornou “chapa-branca” está o arraigado mito de ela era independente no
passado, movida exclusivamente a idealismo juvenil e sempre em busca do
melhor para o país. Ocorre que a UNE não precisa do maná estatal para se
tornar dependente – ela sempre foi uma eterna escrava da canga
ideológica de esquerda.

A UNE é uma espécie de diretório vitalício do PC do B. O partido
comanda a entidade há décadas, usando o movimento estudantil como seu
balão de oxigênio, uma vez que vive em coma no resto da sociedade. Não
são muitos os líderes do partido sem raízes na UNE ou no movimento
secundarista. Uma dessas exceções é o senador Inácio Arruda, que é do
movimento de luta pela moradia do Ceará. A maioria das estrelas do PC do
B ingressou na política a partir de sua atuação como dirigentes do
movimento estudantil, como Aldo Rebelo (deputado federal por São Paulo),
Vanessa Graziotin (senadora pelo Amazonas), Orlando Silva (atual
ministro dos Esportes) e a musa gaúcha Manuela Dávila, deputada federal,
cujo endereço eletrônico na página oficial do PC do B é sugestivo:
eaibeleza.com.br.

De costas para os estudantes

Mantendo essa tradição, o estudante Daniel Iliescu, novo presidente da
UNE, também é filiado ao PC do B, assim como Augusto Chagas, que está
deixando o cargo, e Lúcia Stumpf, a presidente anterior. Convém lembrar
que a eleição do presidente da entidade se dá por via indireta, o que
facilita a eternização de um mesmo grupo político no poder. Isso mostra
que, na prática, a UNE é mais política do que classista e nunca
representou o interesse dos estudantes — apenas se vale deles para
defender sua ideologia. Afinal, o verdadeiro interesse da maioria dos
alunos é se formar e cuidar da vida e não pontificar em passeatas sobre
os problemas nacionais, muitos deles sem nenhuma relação com o ensino.

A exemplo do que acontece com os demais sindicatos trabalhistas ou
patronais, o movimento estudantil também tende a ser aparelhado por
profissionais da reivindicação. Quando foi eleito presidente da UNE, em
2009, o paulista Augusto Chagas, segundo noticiou a imprensa, tinha 27
anos e já havia iniciado três cursos, mas não tinha concluído nenhum.
Isso sempre foi comum no movimento estudantil. Mas não se trata de
incapacidade e, sim, de estratégia. Como não é possível preparar um
líder do dia para a noite, não é interessante que o estudante se forme
muito rápido, pois ficaria uma lacuna no movimento.

Além disso, como a UNE é um celeiro político do PC do B, os líderes
estudantis são potenciais candidatos do partido a cargos como o de
vereador ou deputado. Mas, como as eleições são de dois em dois anos e
as candidaturas dependem de alianças com outros partidos, enquanto não
surge essa oportunidade, é preciso que o dirigente estudantil se
mantenha nos palanques escolares, caso contrário, desaparece antes de
florescer para a vida partidária. Não se trata de uma característica
exclusiva da UNE, mas de uma norma dos movimentos sociais, que nada têm
de espontâneos.

A própria criação da UNE não foi espontânea. Além de contar com o aval
do ditador Getúlio Vargas, ela nasceu sob a influência do Partido
Comunista Brasileiro, de quem o PC do B iria herdar o comando da
entidade. A influência da ideologia comunista no movimento estudantil
pode ser medida por uma confissão do professor Gil Cesar Costa de Paula
em sua tese de doutorado sobre a UNE defendida em 2009 na Faculdade de
Educação da Universidade Federal de Goiás. Ele, que foi um dos líderes
do movimento estudantil goiano, entre 1981 e 1985, conta que não se
esquece da frase de um dirigente do Partido Comunista do Brasil, ao qual
pertencia: “O que interessa não é o que é importante para a
universidade, mas o que é importante e favorece o Partido”.

A “ânsia patrimonialista” da UNE

Aliás, se visse o trabalho do professor goiano (que integra o quadro de
pesquisadores da PUC de Goiás), Lula iria acusá-lo de querer denegrir a
imagem do movimento estudantil, pois o título da referida tese de Gil
Cesar Costa de Paula é sintomático: “A Atuação da UNE: Do Inconformismo à
Submissão ao Estado (1960-2009)”. Só que na visão do pesquisador, a
submissão da UNE não se restringe ao governo Lula; começa em 1986, após a
eleição pelo Colégio Eleitoral do primeiro presidente civil. A partir
desse período, segundo ele, a UNE deixa de lado a insubordinação que a
caracterizou durante o regime militar e passa a colaborar com os
governos estaduais ou com o governo federal.

Gil Costa, que entrevistou os principais dirigentes da UNE, inclusive
sua então presidente nacional, Lúcia Stumpf, revela, na tese, as
contradições da entidade: “Os discursos dos ex-dirigentes da UNE, em sua
maioria, negam a submissão da entidade ao Estado. Os documentos que
localizei demonstram uma tendência em sentido con-trário aos discursos. O
período que se inicia no final de 1985 é consubstanciado na colaboração
com o Estado, in-clusive, com a assumência de cargos na burocracia da
ad-ministração pública”. Para o autor, outras entidades populares
tiveram a mesma mudança de comportamento, “excetuando-se os
trabalhadores rurais sem terra” (o que não é verdade, mas não cabe neste
artigo).

Ao discorrer sobre a mudança da UNE, de uma “perspectiva
transformadora” para a “gerência da burocracia”, Gil Costa chega a falar
numa “luta aberta por cargos públicos, a serem exercidos com ânsia
patrimonialista”. O pesquisador observa que o discurso comum a todos os
dirigentes da UNE é a defesa dos “ideais libertários e progressistas”.
Trata-se, segundo ele, de um discurso construído pelos partidos que
atuam no movimento estudantil, visando produzir uma ação uniforme em
todo o país. “O objetivo é assegurar o controle partidário sobre as
organizações dos estudantes, das quais a UNE é a principal conquista” —
sustenta o pesquisador, salientando que os líderes estudantis e os
dirigentes estatais muitas vezes são as mesmas pessoas.

A ciência encabrestada

Mesmo afirmando que a submissão da UNE ao Estado começa em 1986, Gil
Costa reconhece que ela se acirra no governo Lula, “que faz a cooptação
dos seus ex-dirigentes e dos atuais, com o discurso de atendimento de
suas reivindicações”, que, no entender do autor, não se efetiva. “A UNE
atuou em determinadas conjunturas como protagonista, mas ao priorizar os
acordos e negociações com o Estado tem figurado como coadjuvante na
política nacional, aderindo ao projeto de universidade do governo,
sobretudo a partir da ascensão de Lula a presidente da República” —
conclui o autor da tese.

O pesquisador questiona outros trabalhos acadêmicos sobre a UNE, alguns
produzidos na USP, que, segundo ele, não conseguem escapar da
“abordagem tra-dicional que idealiza a atuação estudantil”. No seu
entender, a sua tese escapa desse viés ao reconhecer a submissão da
entidade ao Estado. E de fato, ela chega a ser ousada para o esquerdismo
universitário, ao afirmar que “não existe o movimento estudantil
organizado sem a vinculação de suas lideranças com os partidos
políticos”, uma vez que, como o autor reconhece, a juventude não
constitui uma classe social homogênea, necessariamente revolucionária e
de esquerda. Com isso, Gil Cesar Costa de Paula pode até ser confundido
com um “inimigo de classe” por um leitor apressado do PC do B. Mas
engana-se o comunista que pensar assim, pois o referencial teórico do
autor é todo de esquerda.

Mas seria esperar muito de uma pesquisa defendida na universidade
brasileira — sobretudo na Faculdade de Educação da UFG — que ela fosse
se alicerçar em algum teórico que não fosse marxista, escapando da
mitologia esquerdista que encabresta praticamente toda a ciência
produzida no país. Gil Costa tem o mérito de reconhecer que a UNE
tornou-se submissa ao Estado (e a atmosfera esquerdista em que respira
torna essa afirmação ainda mais irrefutável), mas não consegue ir além
dessa constatação, deixando de levar suficientemente a sério sua própria
lembrança do movimento estudantil: a do dirigente comunista lhe dizendo
que o que importa não é o que interessa à universidade, mas o que é de
interesse do Partido.

Suspirando pela UNE mítica

Bastaria essa fala do dirigente comunista para mos-trar que o movimento
estudantil nunca foi independente e nem pode ser, pois não se faz
movimento social por geração espontânea. Antes de render-se ao maná do
Estado, a UNE já era uma extensão das máquinas partidárias de esquerda,
notadamente do PC do B. E é justamente esse o maior mal do movimento
estudantil. Se a UNE fosse uma entidade plural, ela até poderia receber
patrocínio do Estado; afinal, como diz acertadamente Lula, todos
recebem. O problema é que, pelo fato de ser uma entidade encabrestada
pela ideologia comunista, todo dinheiro público que entra nela é como se
virasse fundo partidário.

Prova disso é que o movimento estudantil sevicia-se nos R$ 42,8 milhões
de reais do governo Lula, inclusive com direito a construir uma sede
própria luxuosa, assinada por Oscar Niemeyer, mas jamais abdica dos seus
ideais de destruição do Estado capitalista. Toda a pauta política da
UNE, da defesa dos sem-terra ao combate à homofobia, passando pelo
nacionalismo retrógrado, é ditada pela necessidade de criar problemas
para o Estado capitalista (que a financia) com o objetivo de superá-lo,
implantando o “outro mundo possível” eternamente sonhado pelos
socialistas. Ou seja, a exemplo dos sem-terra, a UNE também é usada como
uma ameaça dos partidos de esquerda contra a nação. Esse é o seu maior
problema e não o fato de receber verbas públicas.

Quando critica a atual submissão da UNE ao Estado, toda a imprensa
suspira pela UNE mítica das lutas populares contra a ditadura e se
esquece que a submissão daquela UNE era infinitamente pior do que a de
agora. Enquanto a UNE de hoje se submete a um governo eleito, a do
passado era encabrestada por tiranias comunistas alienígenas, importadas
da União Soviética, China, Albânia, Cuba e outras ditaduras
totalitárias responsáveis por mais de 100 milhões de cadáveres. Sob esse
aspecto é até bom que a UNE se sevicie no maná oficial. Isso evita que
ela leve o jovem a beber o sangue das revoluções, como o PC do B fez no
passado ao promover — irresponsavelmente — a Guerrilha do Araguaia.

Representação dos estudantes e
objetivos políticos claros

Dirigentes da entidade
explicitam reivindicações. Novo presidente diz que Dilma  Rousseff
mostra tolerância zero com corrupção, mas não cita que ela só age quando
a imprensa denuncia os escândalos

Márcia Abreu


De um congresso de estudantes em 1937, no Rio de Janeiro, nasceu a
União Nacional dos Estudantes (UNE). O objetivo era discutir temas
políticos e sociais e delinear melhorias que levassem a educação pública
de qualidade. Sem recursos, o grupo iniciou atividades em todo o país;
sofreu repressões, mas conseguiu se consolidar.

Com viés quase sempre socialista, a UNE liderou campanhas contra o
custo alto de vida e se posicionou a favor da indústria siderúrgica e do
monopólio estatal do petróleo. Em 1950, passou por uma rápida fase
direitista, influenciada pelo comando da entidade, então ligado à UDN,
porém logo voltou ao perfil de esquerda. 

Organizada entre diversos grupos — cultura, ciência, negros, mulheres,
gays e lésbicas —, a UNE tem o papel de defender a educação. Suas
principais reivindicações hoje são conseguir com que 10% do Produto
Interno Bruto (PIB) e 50% do Fundo Social do Pré-sal sejam destinados à
educação e que se crie um pacto nacional a fim de diminuir o alto índice
de analfabetos no Brasil.

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), Daniel Iliescu é o novo presidente da UNE, empossado no dia 17.
Ele diz que a função da União é representar o interesse dos estudantes
brasileiros e que a juventude entende que o país precisa ser mais justo e
se desenvolver.

Questionando sobre o relacionamento da entidade com o governo federal
Iliescu afirma que é respeitoso, assim que deve ser, afinal a entidade
tem a obrigação de se relacionar bem como o executivo federal já que
representa os estudantes. O universitário avalia como positivo os
primeiros seis meses do mandato da presidente Dilma Rousseff (PT).

Ele avalia que a forma como ela se posicionou diante das crises que
surgiram (ex-ministro da Casa-Civil, Antonio Palocci, e diretores do
Ministério dos Transportes, exonerados) mostra que Dilma tem tolerância
zero com a corrupção. Ele não cita que a presidente só agiu quando a
imprensa denunciou a corrupção. “Tomara que [Dilma] continue assim.
Porque a UNE é independente. Apoiaremos quando for correto; na hora que
tivermos que criticar não recuaremos. A sociedade já não aguenta mais
tanta corrupção.”

Para Daniel Iliescu, o Brasil precisa oferecer ensino fundamental,
médio e superior de qualidade. Os passos iniciais devem ser alfabetizar
os que hoje não sabem ler e escrever, destinar mais recursos para a
educação e substituir o Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e
Expansão das Universidades Federais (Reuni), que tem como meta ampliar o
acesso e a permanência na educação superior.

Na opinião do estudante, o Reuni se esgotou. “É preciso criar um
programa mais ousado. O País é a sétima economia do mundo e há uma
desproporção enorme entre nível escolares e classe social. Via de regra a
educação é sucateada.” Daniel Iliescu é filiado ao PCdoB. Quer ser
professor da UFRJ e trabalhar na área de extensão, mas não descarta a
possibilidade de iniciar na carreira política.

O estudante de Direito e presidente do Diretório Central (DCE) da
Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Alzir Pimentel
Aguiar Neto, conta que a UNE exerce um trabalho institucional e
combativo, participando de reuniões e indo às ruas, permitindo o
contraditório e se fazendo ouvir. Tem caráter propositivo e realizador,
diz ele. “A UNE é a entidade dos estudantes brasileiros, da democracia,
do petróleo é nosso, do fora Collor, das lutas do povo do nosso País.”

Ele avalia que a maioria dos estudantes é apática com a política e não
conhece a história da UNE, mas, que, apesar disso, a sociedade está mais
atenta às questões que a aflige. “A política é caso sério e interfere
diretamente em nossas vidas, isto faz os estudantes se mobilizarem”,
opina.

Aliz Neto
critica a qualidade do ensino público brasileiro, tão aquém da de
outros países e com um preço quase sempre muito caro. O imposto do País,
um dos mais caros do mundo, não tem sido investido de forma correta.
“Quando não desviado é mal investido. A avaliação que faço é de
verdadeira lástima do ensino público.” As principais bandeiras
defendidas pelo DCE da PU-GO é a segurança pública preventiva, o
passe-livre estudantil, 10%do PIB para Educação e acessibilidade para
deficientes, cultural e conscientização ambiental.

A estudante de Fisioterapia e presidente do Centro Acadêmico do curso,
Natacha Royer Tiemann, também faz parte do DCE da PUC-GO. Para ela, o
estudante tem que se manter na luta diariamente “pois tudo na vida é
política.” Considera uma pena que alguns estudantes tenham concepção
distorcida do papel da UNE e se neguem a participar das manifestações,
ou então que tratem o movimento estudantil como um amuleto para
benefício próprio.

Para Natacha, o fato de a política no Brasil não ser mais repressiva
faz com que alguns se afastem das causas sociais. Um dos papéis do DCE
da PUC-GO é de outras forças estudantis é resgatar a massa que pouco se
interessa ou não participa, mostrar que unidos poderão mais. Natacha
Royer não é filiada a partido político porque não se sente a vontade
para fazê-lo. Mas diz ter ideologia política formada.


A estudante de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG) Marcela
Coimbra é coordenadora do DCE da Universidade. Ela explica que o
diretório não reconhece a UNE como entidade representativa. Por isso
fazem trabalho independente. “Reivindicamos melhorias que vão desde um
bebedouro a questões de mobilidades operacionais. Um exemplo é a nossa
briga pelo passe estudantil, que já dura meses.”

O DCE da UFG não tem presidente para que ideias não sejam votadas em
hierarquias. As direções são horizontais. De acordo com Marcela Coimbra,
o que une os estudantes, entre outras coisas, é o objetivo em comum de
formar pessoas críticas, fazer o aluno um ser pensante, fazer ciência na
universidade e a preocupação com o agronegócio. “Todas as deliberações
são consensuais a partir de reuniões com todos os estudantes da
Universidade.” Marcela é filiada ao PCB e tem vontade de ser professora
universitária.

A estudante de Ciências Sociais da
PUC-GO Erveline Batista de Lima enfatiza que a UNE é respeitada hoje
pelo Poder Executivo em função do seu histórico de luta. “Suas
reivindicações foram fundamentais para que chegasse aonde chegou hoje.”
Ela avalia, no entanto, que esse fato faz com que os estudantes não se
engajem tanto como antigamente, indo às ruas apenas quando estão
bastante incomodados.

Para Erveline, o governo Lula “mudou a cara do Brasil”, possibilitando
avanços sociais e econômicos a muitas classes. Todavia, a educação está
longe de ser a que a maioria dos brasileiros necessita. “Em geral, é
sucateada. Falta de estrutura física a biblioteca.”  Erveline Batista é
filiada ao PCdoB.

A principal reivindicação dos movimentos estudantis hoje em Goiás é a
garantia do passe livre para alunos do ensino fundamental a superior. De
acordo com a estudante Cláudia Herlaine, que é filiada ao PCdoB, o
governador Marconi Perillo, autor da promessa durante sua campanha do
ano passado, recebeu representantes dos Diretórios Estudantis e Centro
Acadêmicos para discutir, mas até agora não há nada definido.

Jornal Opção. 

Deixe uma resposta

Veja Também:

Últimas Postagens

Siga-nos nos Facebook

%d blogueiros gostam disto: